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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Conto - Chico

     Chamava-se Chico. De quê? Ele mesmo não sabia…– Gente pobre não tem nome… – costumava dizer.
      Tinha sete anos. De dia vendia jornais, de noite apanhava bordoada do irmão mais velho, o Zico, que vivia embriagado.
     A mãe havia muitos anos que estava atirada sobre um colchão velho, paralítica, cadavérica, tendo a todas as horas do dia, diante dos olhos baços e sem expressão, o mesmo quadro de miséria e desalento: as paredes sórdidas do quarto, donde pendiam molambos, o teto carcomido e cheio de teias de aranha, a janela sem batentes, eternamente escancarada, mostrando uma nesga de céu em que nas noites claras se vislumbrava, como uma esmola luminosa, a claridade fugidia de estrelas…
     O pai – Chico mal se lembrava disto – morrera por um dia triste de inverno, de peste, e se fora, quase nu, dentro duma carroça velha que ia fazendo tóc-tóc-tóc-tóc. . ., aos solavancos, pela estrada barrenta e sinuosa que ia dar no cemitério. Chico ouvia sempre dizer que havia lá em cima, no céu, um Deus muito bom e muito severo, que não queria que as crianças dissessem nomes feios nem desobedecessem aos mais velhos. Era um homem muito poderoso, que punha empenho em que todas as cousas na terra andassem direitas e bem feitas.
     Surgia, então, na cabecinha do garoto um problema intrincado e insolúvel.
    Chico via no mundo (mundo era a cidade em que ele, Chico, morava) gente feliz, rica, alegre; crianças que andavam bem vestidas, que tinham brinquedos surpreendentes e que comiam os doces mais saborosos desta vida. Via, ao mesmo tempo, de outro lado, os infelizes, os desprotegidos da fortuna, os que rolam pão duro e andavam a ferir os pés descalços no pedregulho das ruas. E o pequeno não podia compreender a razão de tanta desigualdade de sorte no mundo. Como era que Deus, tão bom e tão justo, consentia em que existissem crianças felizes e protegidas, ao mesmo passo que existiam outras, desgraçadas e sós, que, pra ganhar alguns tostões, – magríssimos tostões –, tinham de andar vendendo jornais pelas ruas, à luz adustiva do sol?…
     E Chico não compreendia… Não compreendia e ficava pensando, pensando…Mas não se detinha por muito tempo em tais cogitações, que adivinhava inúteis. A vida ensinara-o a ser prático. Bem sabia que com sonhos e lucubrações não ganharia o seu salário. Por isso se atirava ao trabalho.
     – O’ia o Correio da Manhã! O Correeeeio! E assim ia vivendo…

Érico Veríssimo (amo amo amo)


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Veríssimo!

Amores, eu sou estudante de Letras. Por mais que eu faça edição, tenha tendências à Linguística e não suporte aulas de Literatura, eu gosto de muito livros. Rssssssssss... Leio muito, de tudo... Mas tenho uma paixão grande, gigante, avassaladora, por Érico Veríssimo! Esse gaúcho foi pop no século passado viu gente. Um dos mais em nosso país. Ele possui contos, romances, novelas, literatura infanto-juvenil, narrativas de viagem, autobiografias, ensaios, traduções... Teve obras adaptadas para teatro, cinema, TV e seus livros foram traduzidos para  o alemão, espanhol, finlandês, francês, holandês,húngaro, indonésio, inglês, italiano, japonês, norueguês, polonês, romeno, russo, sueco e tcheco. Uffa! Seriam motivos demais para conhecer tal autor.... mas nada se compara a um certo título: O Tempo e o Vento. Meu amor começou com As Aventuras do Avião Vermelho na infância, passou por Clarissa na adolescência, se firmou com O Tempo e o Vento em uma época mais madura, e ficou marcada com Olhai os Lírios do CampoA quem não conhece, fica o convite! A quem conhece, compartilhe suas experiências! 



A gente foge da solidão, quando tem medo dos próprios pensamentos.
Érico Veríssimo